quinta-feira, 31 de março de 2016



ENSAIO
SOBRE A OBRA
"PARA A HISTÓRIA DA MAÇONARIA FEMININA EM PORTUGAL"
DE
Maria Manuela Cruzeiro

De Minoria Perseguida a Silenciosa Vencedora

Diz A.H. de Oliveira Marques, em História da Maçonaria em Portugal, vol. I: "Das origens ao Triunfo", Prefácio, p. 11, que o 1º século da História da Maçonaria em Portugal é a história de uma minoria perseguida, e refere, que só um iniciado pode fazer a sua história, já que é o único que possui o conhecimento íntimo da vivência e prática maçónicas. Sendo lícito o seu estudo por qualquer historiador não maçon, o mesmo não passa de uma história incompleta, incapaz de abranger toda a sua realidade.
É pois, com esta Nota de Abertura, que Maria Manuela Cruzeiro, licenciada em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e especializada em Biblioteconomia (Ciências Documentais) na Universidade de Coimbra, e fundamentalmente, a primeira Grã-Mestra da Grande Loja Feminina de Portugal, que inicia esta sua obra (Crónica) "Para a História da Maçonaria Feminina em Portugal", Lisboa, Âncora Editora, 1ª edição, junho de 2013, numa narrativa intimista, como refere no Prefácio F. Nogueira de Andrade, colega e amigo, invocando a sua honestidade intelectual e fonte fidedigna dos factos, pois vividos pela sua participação activa na construção da Obediência, "oficialização nacional e internacional da Maçonaria Feminina, em território lusitano". Escreve que a autora, manifesta neste seu livro uma alegre emoção, após "tantas exigências, preocupações e sacrifícios", revelando com "coragem e determinação" os princípios "morais, espirituais e filantrópicos" bem assim os "pilares ideológicos e humanistas" que sustentam a Irmandade - Liberdade, Igualdade, Fraternidade, além de se referir aos vários conceitos de Maçonaria, às questões que se levantam ao nível do seu Simbolismo e Segredo, e, às virtudes da Tolerância e da Solidariedade, entre outras.
Entremos então, no livro propriamente dito.
Maria Manuela Cruzeiro diz-nos, que a História da Maçonaria e suas origens, se "perdem na noite dos tempos", e, apesar de diversas hipóteses, todas elas controversas, ou todas verdadeiras, conforme a aceitação de cada um, o seu interesse não parou de crescer. A sua história, é também a história da Maçonaria Feminina, a partir dos finais do séc. 18 e a história da evolução das Mulheres na Sociedade, sobre a prática dos seus valores: "Liberdade, Igualdade, Fraternidade, Tolerância, Solidariedade, Justiça, Cumprimento do Dever, Procura da Verdade...", isto é, valores defendidos pela Revolução Francesa de 1789.
Segundo Mª Manuela Cruzeiro, os factos históricos são documentados, se não vejamos:
. Em 1774, o Grande Oriente de França, reconhece as "Lojas de Adopção", Lojas para Senhoras criadas na zona de Paris, tuteladas ou adoptadas, isto é, subalternas , dependentes das Lojas Masculinas, na intenção de responderem aos anseios femininos e à sua participação em obras de caridade e reflexões filosóficas. Como durante o período revolucionário a Maçonaria Francesa sofre um colapso, as "Lojas de Adopção" acabam igualmente por desaparecer. Em janeiro de 1882, a Loja masculina "Os Livres Pensadores do Pecp" (Yvelines-sur-Seine, França) inicia Marie Deraisme (1828-1894) mulher e artista muito culta, o que provocou no seu seio um enorme conflito, acabando por a expulsar. De qualquer forma, ela não desiste e, 11 anos mais tarde, a 14 de Abril de 1893, conjuntamente com o seu marido, Georges Martin, funda a primeira Loja Maçónica Mista "O Direito Humano", afirmando a igualdade entre o Homem e a Mulher.
. Em Portugal, a primeira Loja de Adopção com o nome "Filipa de Vilhena", surge em 1881 como filial da Loja "Restauração de Portugal", nº22 do Grande Oriente Lusitano Unido. Mas em 1883, os membros da Loja "Restauração de Portugal" dividiram-se, tendo os dissidentes, bem assim a Loja de Adopção, sido irradiada.
. Entretanto, em França, é institucionalizada a Ordem Maçónica Mista Internacional "O Direito Humano", e, em 1901, é iniciada Louise Michel (1830-1905), professora primária e anarquista, dando seguimento à luta travada por Marie Deraisme.
. Vinte e um anos depois, em 1904, dá-se uma segunda tentativa em Portugal, criando duas novas Lojas de Adopção: a "Humanidade", filial da "Comércio e Indústria" e, "8 de Dezembro", filial da "Fernandes Tomás". Ainda no início do século XX, mais concretamente a 3 de maio de 1907, o Grande Oriente Lusitano Unido iniciou Ana de Castro Osório, numa 1º Loja de Adopção, bem como já tinha iniciado Adelaide Cabete e outras mulheres. A 8 de abril de 1907, a Loja "Filipa de Vilhena", presidida por Ana de Castro Osório, é reconhecida independente a 6 de junho de 1909, recebendo carta patente de Soberano Grande Capítulo de Cavaleiro Rosa-Cruz. Tal facto não acontece relativamente à loja de Adopção "8 de Dezembro", que do afastamento do Grande Oriente Lusitano Unido por parte da "Fernandes Tomás", ambas foram abatidas do Quadro das Lojas em 1911.
. Com a implantação da República em 5 de outubro de 1910, reacende-se a discussão interna sobre a aceitação ou não das mulheres na Maçonaria. Havia (há) alguns maçons que defendem a igualdade da mulher com todos os direitos e em todos os domínios, e outros, que aceitariam a sua presença, mas em lojas de Adopção; e, acrescenta Mª Manuela, que pensa não errar ao afirmar que há outros que não aceitam de forma nenhuma as mulheres na Maçonaria.
. Seguiram-se anos de luta até 1920, continua a autora a descrever-nos, data em que as Lojas Femininas sofreram uma desagregação, apesar do número de mulheres iniciadas ter aumentado em todos os continentes. Em 1945 é criada em França a União Maçónica Feminina que, a partir de 1952, se transformou na Grande Loja Feminina de França, Obediência Maçónica, independente e autónoma.
. Em Portugal, foi criada a 29 de março de 1997, a Grande Loja Feminina de Portugal, com patente outorgada pela Grande Loja Feminina de França, completando este mês e ano de 2016, 19 anos de vida. Convém aqui referir que, antes do 25 de abril de 1974, não havia em Portugal, instituições maçónicas femininas. Isto porque, durante o Estado Novo, a Maçonaria era proibida, perseguida, condenada e saqueada e, depois, as mulheres continuavam limitadas nos/ou sem direitos civis e políticos.
Maria Manuela Cruzeiro, presta seguidamente uma pequena homenagem às heroínas maçónicas, fundadoras e lutadoras pelos direitos das mulheres, não só no meio social ou país (ses) onde nasceram ou nos diferentes continentes, mas também no seio do própria Ordem, tornando-se independentes.
São elas:
. Marie Deraisme nascida em Paris (ou Bourbon) em 1828 e falecida a 6 de fevereiro de 1894 aos 66 anos de idade, desperta a atenção pelo seu talento de polemista em jornais e panfletos, reivindicando a emancipação da mulher. Em 1866, sendo atacada violentamente pela imprensa clerical, a maçonaria decide defender-se em público, organizando conferências filosóficas para as quais convidam Marie Deraisme, iniciando assim o seu sucesso. Em 1874, com o apoio de um jovem médico e seu marido, Georges Martin, aborda temas como a proteção da Mulher e da Criança. Em 1881, decide solicitar a sua admissão na maçonaria, tendo a sua iniciação tido lugar no dia 14 de janeiro de 1882, apesar de resistência da Obediência, a Loja "Les Libres Penseurs du Pecq" recebe-a.
. Louise Michel, nasceu em Haute-Marne, França, a 29 de maio de 1830 e morreu em Marselha a 10 de janeiro de 1905. Filha de pai nobre e mãe plebeia (servente), recebeu uma boa instrução e uma educação liberal no Castelo de Vroncourt. Foi anarquista, professora primária, ativista e sendo eleita presidente do Comité de Vigilância das Cidadãs do 18º bairro de Paris e participando na Comuna, foi deportada para a Nova-Caledónia, onde esteve degredada entre 1873 e 1880. Em 1883, após regressar a França, foi condenada a 6 anos de prisão por ser militante anarquista. Amnistiada em 1886, volta depois aos Tribunais por agitação revolucionária com o maçon Paul Lafargue. Em 1895 funda o Le Libertaire com o maçon Sébastien Faure. Em 1898 escreve a sua biografia no livro A Comuna (La Commune de Paris), onde descreve vários acontecimentos do dia 29 de abril de 1871. Apesar de durante muito tempo se ter pensado que pertenceria a uma Loja Maçónica de Adopção, sabe-se agora que no dia 13 de setembro de 1904, foi admitida numa Loja dissidente do Rito Escocês, a "Filosofia Social", que se afiliou na Obediência "Grande Loja Simbólica Escocesa".
. Ana de Castro Osório, nasceu em Mangualde a 18 de junho de 1872 e morreu em Setúbal a 23 de março de 1935, não tendo completado os 63 anos de idade. Escritora, pedagoga, feminista, republicana, foi em Portugal pioneira na luta pela igualdade de direitos de homens e mulheres. Em 1905 escreveu o seu primeiro manifesto intitulado Mulheres Portuguesas. Em 1907 foi uma das fundadoras do Grupo Português de Estudos Feministas da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e Presidente da Loja "Filipa de Vilhena"; em 1909 da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas; da Associação de Propaganda Feminista em 1912; e, da Comissão Feminista "Pela Pátria" em 1916, a partir da qual se formou, no mesmo ano, a Cruzada das Mulheres Portuguesas. Ana de Castro Osório foi casada com o poeta Paulino de Oliveira, membro do Partido Republicano. Após a instauração da República,  colaborou com o ministro da Justiça, Afonso Costa na elaboração da Lei do Divórcio. Escreveu contos infantis e realizou traduções de outros estrangeiros, bem assim peças de teatro e romances. Viveu no Brasil, onde o marido foi cônsul de Portugal entre 1911 e 1914. Continuando a escrever e sendo professora em São Paulo, algumas das suas obras foram adoptadas nas escolas brasileiras.
. Adelaide Cabete nasceu em Alcáçovas, Elvas, a 25 de janeiro de 1867 e morreu em Lisboa a 14 de setembro de 1935. Em Portugal foi uma das principais feministas do sec. XX. Republicana convicta, presidiu ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas durante mais de 20 anos, reivindicando o direito a um mês de descanso antes do parto, ao direito ao voto em 1912, e, foi a primeira mulher a votar em 1933, em Luanda, onde vivia. De origem humilde, mas com o apoio do marido, soube enfrentar as adversidades da vida e estudar, tendo terminado a instrução primária com 22 anos e o curso de medicina com 33. Foi médica obstetra e ginecologista, e professora no Instituto Feminino de Odivelas. Escreveu dezenas de artigos no âmbito da saúde e outros, nos quais demonstrava a sua preocupação social. Ingressou na Maçonaria antes de Ana de Castro Osório na Loja Feminina "Humanidade", da qual saiu por divergências no que concerne à Loja voltar a ser de "Adopção", transferindo-se para o "Direito Humano".
Após esta breve biografia das 4 mulheres dedicadas e construtoras da Maçonaria Feminina em França e Portugal, Maria Manuela Cruzeiro, reintroduz-nos na(s) origens da Maçonaria como Filosofia e/ou Literatura(s), referindo que a "Maçonaria é uma corrente de pensamento, permanentemente preocupada com o aperfeiçoamento do ser humano, e defendendo a filosofia herdada de Confúcio (filósofo chinês): "Se cada indivíduo agir para ser melhor, as famílias serão melhores... se cada família for melhor, as sociedades serão melhores... se cada sociedade for melhor, todo o mundo poderá ser bom". Ao longo da sua evolução  e, como corrente de pensamento, "atribuem-se-lhe origens diversas: egípcias, gregas, célticas, bíblicas, templárias...", ou um pouco de cada uma, na idealização da vida social, mas sendo uma organização fechada, e não uma sociedade secreta, citando Paul Naudon: "Se a Maçonaria fosse isso, nada mais do que isso, isto é, uma sociedade secreta, e desde há muito tempo, ela seria bem conhecida e, como uma velha senhora, já não deveria suscitar paixões! No entanto, o véu de Isis que esconde os seus mistérios, embora muitas vezes soerguido, ainda excita os corações e intriga os espíritos". A história da(s) Maçonaria(s) perde-se pois num tempo passado indefinido, abrangendo em si toda a aprendizagem e evolução do ser humano ao longo da sua história. É uma pluralidade de formas na singularidade da sua abrangência universal. Refere ainda, citando novamente Paul Naudon, que há muito tempo os Maçons são numerosos e influentes entre os Anglo-Saxões, tendo muitos autores estudado a sua história, tornando-a não como uma instituição social, que o foi durante muito tempo, mas uma ciência especulativa.
Mas regressemos à sua etimologia (som, palavra, símbolo) dos termos "Maçonaria e Franco-Maçonaria". "Maçon" significa "pedreiro" e "Maçonaria" "trabalho em pedra, alvenaria" e "franco, franca",  que surge no séc. XVIII, com a expressão de "pedreiro-livre", associado aos termos "franco", "franc" "free", no sentido "em que os Operários e Construtores de Catedrais e de Palácios se libertaram da tutela, isto é, da servidão aos Senhores (nobres e religiosos), que lhes pagavam as obras construídas, na maioria encomendadas". Eram os considerados segredos profissionais que os arquitetos e operários mantinham, não dando a conhecer a mais ninguém, pelo que lhes proporcionava poder e liberdade. Os "agrupamentos profissionais" atrás referidos,  denominavam-se no século VI de "associações monásticas", dedicando-se à construção de igrejas e conventos, passando no séc. XI e XII, após a evolução da arte romana e o aparecimento do estilo gótico, a serem designadas de "comunidades dos ofícios", com composição laica, mas continuando a ter um fundamento sagrado. Outras formas de associação que surgiram também na época, eram "as guildas" de origem germânica, e as Associações Fraternas (Fraternelles), comuns em França. Estas associações, ao princípio religiosas, depois de proteção e de assistência mútua (as Associações de Socorros Mútuos dos Artistas em Portugal) passaram a verdadeiros organismos profissionais. As Corporações dos Ofícios, de que temos conhecimento, por exemplo através de Le Livre des Métiers  (Paris, 1268) e a Casa dos Vinte e Quatro (Lisboa, 1384), representantes dos mesteres, na Câmara de Lisboa e que a partir de meados do século XVI, passou a designar-se "Colégio dos 24".
Os Pedreiros-Livres vieram mais tarde, a coabitar com os Livres-Pensadores, dado que, para além de discutirem os projectos das suas construções também o faziam para assuntos de ordem moral, social, política, etc.

Maria Manuela diz-nos a seguir, que a Maçonaria se apresenta nas seguintes organizações/influências ao nível do seu método: Escocesa/Inglesa e Francesa.
A Maçonaria Escocesa estrutura-se entre 1717 e 1723, data da compilação das Constituições de Anderson. A influência inglesa assume-se em outros Países da Europa e nos Estados Unidos da América, bem assim na Maçonaria Feminina, dado o número elevado de mulheres que a ela aderiram. Em Portugal, segundo A. H. de Oliveira Marques (em a História da Maçonaria em Portugal, Lisboa: Editorial Presença, 1996, 3 vols.) foram criadas Lojas Maçónicas com influências inglesas e com influências francesas, aquando das invasões francesas, quer pelos militares ingleses, designados de aliados, quer pelos militares franceses, os invasores. Depois das guerras, quer uns, quer outros, continuaram na manutenção das Lojas Maçónicas, apesar da maior influência da vertente francesa, dada a sua filosofia mais liberal e aceitação das mulheres nas suas hostes.
Mas o que dizer da História da Maçonaria Feminina em Portugal?
Aqui, ela própria, Manuela Cruzeiro, relata a sua experiência: tudo começou em 1979, quando foi contactada por um alto dignitário maçon, o comandante Simões Coimbra, que vinha acompanhado  por outro alto dignitário maçon francês, o historiador Pisani Burnay, em contexto profissional para uma exposição comemorativa do 130º aniversário de Sebastião de Magalhães Lima, um dos mais ilustres Grão-Mestres do Grande Oriente Lusitano Unido. Narra as reuniões, os encontros, as pessoas, os estados emocionais por que ia passando, as conquistas e derrotas, a evolução do processo organizativo que levaram à constituição da 1ª Loja Feminina de Portugal " Unidade e Mátria", que foi instalada no dia 6 de Maio de 1983, após a iniciação em França no dia 3 de outubro de 1982 das quatro primeiras mulheres: Maria Belo, Fernanda Andrade, Teresa C. e ela própria, com o apoio das mestras francesas. A partir daí, é história narrada na 1ª pessoa: os anos seguintes, os ideais, o deslumbramento histórico que a Maçonaria lhe trazia, as características de um maçon: alegre, optimista, receptivo para ver o lado bom de todas as coisas,  solidário, e na procura constante da verdade, da perfeição, do belo.
Mas, como tudo na vida, a evolução também traz consigo problemas, conflitos, dores, surgidos com o aumento de membros e a luta pela criação de uma segunda loja maçónica feminina. A Loja "Unidade e Mátria" continuava a fazer parte da Federação da Grande Loja Feminina de França. Havia pois que alargar horizontes, lançando-se em novos voos, surgindo assim uma 2ª Loja em Lisboa, a "Lusitânia", fundada a 22 de Fevereiro de 1988, depois uma 3ª no Porto "Invicta", a 23 de fevereiro de 1988, e uma 4ª na Figueira da Foz "Claridade", em 1992. Era pois tempo de se criar uma Obediência independente. Tempo de redigir a "Constituição" e os "Regulamentos Gerais". Tempo de integrar, em situação de igualdade com as demais Lojas Maçónicas Femininas espalhadas pela Europa, Estados Unidos e América Latina, o Centro de Ligação Internacional das Maçonarias Femininas - CLIMAF, o que veio a acontecer a 29 de Março de 1997, dia que ficará para sempre na memória e na história da maçonaria feminina em Portugal.
Os primeiros anos da existência da "Grande Loja Feminina" foram de trabalho permanente: criação e organização de todos os seus órgãos (Assembleia Legislativa e Deliberativa, Conselho Executivo, ou Conselho Federal, Conselho Fiscal e Júri Fraterno). Acresce-se a criação das Comissões Especializadas temáticas, de caracter consultivo, sobre vários assuntos, como propostas sobre rituais, história da maçonaria, etc. Estabeleceram-se protocolos com outras Obediências que adotam os mesmos Princípios, comuns a todas as Obediências regulares, isto é, legítimas, reconhecidas pelos seus pares, e, com mais acuidade pela Grande Loja Unida de Inglaterra, a "Loja Mãe", ou melhor, a Maçonaria Escocesa, que reivindica para si a "autoridade de julgar regulares ou irregulares todas as outras Obediências Maçónicas que foram aparecendo depois dela, seja em que parte do mundo for", o que, não é aceite pela totalidade das Obediências existentes, principalmente por aquelas que gostariam de se libertar do seu domínio, argumentando que os seus membros fundadores, também não eram maçons autênticos, pois não foram regularmente iniciados ou que, qualquer "Obediência Maçónica", tem origem em si mesma" (pois, é como quem diz: quem apareceu primeiro, o ovo ou a galinha?). De qualquer forma, para Maria Manuela, esta questão vai acabar por ser resolvida no futuro.
No que concerne à Grande Loja Feminina de Portugal, ela pode considerar-se Regular, pois que foi criada conforme a "Declaração de Princípios", recebendo patente da Grande Loja Feminina de França, que a recebeu da Grande Loja de França (masculina). Em 2013, ano em que foi editado este livro de Maria Manuela Cruzeiro, a Grande Loja Feminina de Portugal é uma Federação constituída por 15 Lojas: 3 do rito francês e 12 do rito escocês, que abrangem cerca de 400 membros. Sendo aceite pelo CLIMAF - Centro de Ligação das Maçonarias Femininas, mantém contactos e ligações com todas as demais Instituições.
O que leva(va) uma mulher a ser Maçona? Cada uma se interroga(ou), certamente. Qual a razão de aderir a uma associação onde os anseios espirituais e intelectuais são estimulados a procurar respostas? Responde, Maria Manuela: "A Maçonaria constitui, pois, um espaço onde as interrogações do espírito humano se põem de uma forma tão forte e tão categórica que seria impossível ignorá-las; é um caminho do qual é quase impossível desviarmo-nos". Porém, "nem todos os espíritos estão motivados para percorrer esse caminho, razão do abandono ou da irradiação de alguns dos seus membros", o que, em 2013, constitui um total de 105, isto é, um quinto da sua totalidade, se considerarmos 505 membros.

Após a Nota Prévia, a Introdução onde nos fala de Marie Deraisme, Louise Michel, Ana de Castro Osório e Adelaide Cabete, e, os Preliminares anos de 1979 /1980/1981, seguidos de 1982/1983, 1987/1988 e de 1997 e seguintes, este Primeiro Ensaio publicado sobre a História da Maçonaria Feminina em Portugal, pela sua primeira Grã-Mestra eleita da Grande Loja Feminina de Portugal, Maria Manuela Cruzeiro, avança com as Questões da Iniciação, Segredo e Simbolismo de uma forma teórica, abordagem geral de caracter filosófico, sem entrar em qualquer pormenor ou evidência prática. Sabemos o que sabemos, nada mais. Sabemos apenas o que Maria Manuela nos quer transmitir. Este livro é tão só um ensaio, o primeiro, acrescentamos, de um tipo de abordagem da História da Maçonaria Feminina em Portugal.

Se não, vejamos:

Questão da Iniciação: "Há iniciações em todas as comunidades humanas...iniciação faz pensar no início de alguma coisa... conjunto de capacidades para iniciar qualquer coisa...que terá continuidade...". Voltamos ao Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie, dirigido por Daniel Ligou, Iniciação é "uma cerimónia que consagra a admissão do impetrante no grupo do qual ele quer fazer parte, e para cuja admissão ele possui as qualidades exigidas". Trata-se de "um caso especial de um rito de passagem...", um "profano" que quer ser maçon. Que tem que reunir os requisitos para o ser, que tem de se comprometer com o respeito pelas regras da "Lei das Associações", fazendo parte dessas características o pagamento de quotas estipuladas, serem assíduos às reuniões e participarem nos trabalhos. Depois, como herdeiros de responsabilidades históricas, é-lhe exigido permanentemente um comportamento de aperfeiçoamento do seu pensamento, contacto com o próximo que deve ser acessível e inteligente universalmente. Uma das origens deste tipo de cerimónias de iniciação na Maçonaria tem raízes nos ritos da atribuição do título de Cavaleiro, devendo ser "armado cavaleiro", que no século XVIII passou a ser um grau honorífico, em vez da atribuição de uma propriedade. Foi esta herança que passou para os maçons. De qualquer forma, a iniciação maçónica teve também origens latinas, gregas, egípcias e nos mistérios da Antiguidade. "De acordo com Oswald Wirth: "O objectivo da Iniciação consiste em criar um homem novo, transformado, o qual, depois dessa transformação, terá uma outra visão do mundo profano...". "Para Daniel BéresniaK, o objectivo da Maçonaria é formar iniciados, sendo o caminho da iniciação um objectivo para se ser um indivíduo livre. "É necessário ter uma apetência natural para a iniciação, assim como para o misticismo, embora opostos em certos aspectos". É uma qualificação do domínio individual, um instrumento do "ser verdadeiro", uma condição indispensável.
Todavia, Maria Manuela nada nos diz sobre os critérios que regem as escolhas dessas pessoas e não de outras, quem é convidado para o ser, como se faz essa escolha dos que "merecem"(!) ou "são escolhidos"... Relações familiares? Relações de amizade? Relações sociais e políticas? Relações de poder, riqueza e status? Porquê essas pessoas e não outras? Serão essas melhores pessoas, melhores seres humanos, com mais valores sociais, a "nata da existência humana"? Seres perfeitos? Ou mais perfeitos que os outros? Todos sabemos que não! Não se trata de uma elite (ou o pretende ser, ou pensa que é, ou o é, de facto) que se sente superior ou quer ser superior a todos os demais homens? Sentem-se os eleitos? Os escolhidos? Porquê? De quê? De quem? Para quê? Podem olhar à sua volta e ... vêm tantos seres humanos com mais dignidade, valores e intervenção política e social, e que  não pertencem à maçonaria, nem a outra qualquer associação, clube ou partido político e até religião. Porquê, então? Apenas o espírito livre, da escolha e decisão individual? Do direito à associação? Da tradição histórica? Da sua continuidade, que pretendem "infinita"?  Aqui ficam as minhas dúvidas, que se mantêm...e, a minha curiosidade em que alguém, ou Maria Manuela, me possa, com verdade, responder.

Questão do Segredo: Diz-nos Maria Manuela Cruzeiro que esta questão é a "mais controversa de profanos entre si e entre maçons e profanos". Para os profanos, o segredo torna-se irritante, já que tem necessidade de decifrar o que está escondido, o desconhecido, o mistério. Para os maçons, é uma polémica em que nunca estiveram todos de acordo, quanto às origens do Segredo: História? Lenda? Tradição? Ou imaginação criadora? A verdade do Segredo data de milénios e é narrada das mais diversas formas: crónica, poema, romance, drama, etc. Para alguns, tem origem nos tempos da construção das primeiras catedrais, situação que os maçons "herdeiros da tendência operativa dos antigos pedreiros construtores, mantêm o segredo da palavra-de-passe e continuam a lembrá-la nas meditações". Deste modo, "qualquer maçon, se assim o entender, pode declarar a sua condição, mas nunca pode revelar essa condição na pessoa de outrem". Esta situação foi justificada, segundo a autora, "durante os períodos políticos adversos à Maçonaria, em que os maçons foram perseguidos, presos e julgados sumariamente, degredados ou mesmo executados. Ainda hoje há pessoas que detestam a Maçonaria, por ignorância ou fanatismo, razão que justifica a continuidade do segredo. Esses, desconhecem  as grandes causas a que se dedicaram os maçons, como por exemplo: o fomento da educação e instrução, a melhoria das condições sociais e humanas das pessoas, o desenvolvimento dos cuidados de saúde e do tanto que realizaram discretamente "em segredo", porque só conhecido depois. Mesmo assim, por esse segredo, que nada revela "que só constrói", eles também são perseguidos".
Pergunto eu se, a Maçonaria teria algum sentido, para o comum dos mortais ou mesmo para os maçons e maçonas,  sem o Segredo que lhe é inerente, intrínseco? Só o pensamento de segredo, leva qualquer pessoa e sentir uma ébria excitação de mistério, de querer desvendar o mesmo, de saber o que ele suporta, o que pode revelar, o que significa, nem que seja para conhecimento de si próprio. Todo o ser humano (de uma forma geral) é curioso. Daí, "a aura" que é conectada à Maçonaria, pois está muito longe de se alcançar, mas com curiosidade ou desejo,  de se atingir.
Voltamos pois, de acordo com a autora, ao Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie e à definição de "Segredo" por Daniel Ligou "(...) uma obrigação contida no compromisso que o profano aceita, quando é recebido como maçon, de nunca revelar a qualquer não-maçon, seja o que for que diga respeito à Maçonaria. E, do mesmo modo, à medida que vai passando a um grau superior àquele que já possui, mantem a obrigação de nada revelar àqueles que têm graus inferiores ao seu".
Questiono: Hierarquia do Segredo? Nem em ninguém, nem em nada, se confia? Nem os maçons, confiam nos maçons? Porquê? Que segredo (ou segredos) é esse tão importante, que nem pode ser revelado aos seus "irmãos de vida, de ideais?". Como os de grau inferior podem evoluir, se não conhecerem ou saberem o que a Obediência espera deles? Dentro da própria Ordem há hierarquias que não podem ser confundidas nem reveladas? Porquê? Que seres tão perfeitos são esses, que já mais nada têm a aprender com os seus irmãos? A vida não é um continuem? Não se aprende todos os dias? Um pouco, mais? Quem sou eu para afirmar que sou mais perfeito ou melhor que outro ser humano, aquele que está ao meu lado? Quem me deu esse poder? Esse conhecimento?
Diz outro ilustre maçon "Este segredo não é, por vezes, respeitado, e essa falta de respeito pode ser justificada pela difusão de livros e outros escritos, praticamente incontrolável. A responsabilidade disso pode ser atribuída àqueles que modificaram os textos antigos sobre o juramento, livros esses que proibiam que se gravassem esses segredos em suportes móveis ou imóveis". Deste modo, não haverá alguma dúvida quanto à real extensão do segredo, e qual o seu fundamento? O que realmente não se deve revelar e porquê? De facto, há 3 segredos maçónicos "objectivos": a) o segredo de pertença; b) o segredo dos ritos; c) o segredo das deliberações.  Este último é extensivo a todos os maçons, quaisquer que sejam os seus graus ou ofícios, com exceção do que ele possa ouvir da leitura da ata na sessão seguinte. O segredo das deliberações, serve para garantir a liberdade total de expressão. O segredo dos ritos, ou provas, é algo paralelo ao que se passa em qualquer exame, não se podem revelar as provas aos candidatos antes do exame. Quanto ao segredo de pertença, reside na salvaguarda de liberdade de cada Maçom, baseando-se em 3 razões principais: a primeira são os laços fraternos, a segunda os juízos de valor que um profano pode fazer se tiver preconceitos contra um Maçon, e, terceira, a liberdade da própria Ordem.
Maria Manuela Cruzeiro avança com considerações filosóficas sobre o Segredo e seus significados. O verdadeiro segredo maçónico reside no facto de uma experiência vivida ser incomunicável, como qualquer "coisa só nossa" que só comunicaremos a um "ente querido ou alguém em quem podemos confiar". "O segredo maçónico é individual". Adquire-se com a iniciação e é depois desenvolvido em cada maçon, não sendo suscetível de ser transmitido a outrem, muito menos a um profano. "O segredo consta de pensamentos, sensações, reflexões, como um conjunto de elementos de evolução mental, espiritual e filosófica, face a todas as componentes da nossa vida". Refere ainda que o segredo existe a propósito de tudo: na estratégia militar, na ciência, nas surpresas da vida, mas o segredo maçónico não é facilmente traduzível em palavras. E termina: o Segredo Maçónico não existe, porque o que existe é o segredo íntimo de cada indivíduo, que seria incapaz de definir.
Assim, sem mais nem menos, de chofre! O Segredo Maçónico não existe! Parece-me uma justificação e consideração aceitável, esta apresentada pela 1ª Grã-Mestra eleita da Grande Loja Feminina de Portugal: O Segredo Maçónico não existe. Neste caso, sendo pois o segredo um acto individual, que não se pode transmitir a qualquer outro membro da Maçonaria, o porquê da existência desta? Onde está a sua essência? O seu valor? Ou melhor, neste caso, que métodos e técnicas utiliza para tentar ao mesmo tempo aceitar ou tolerar a liberdade individual, com toda a orgânica e pluralidade da Ordem, na conjugação de um terceiro factor: a evolução do ser humano, contemplando aqui o próprio maçon ou maçona e todos os demais seres humanos que caminham na vida em busca de melhores condições de existência, dignidade e afectos?

Questão do Simbolismo: o símbolo está presente em toda a vida maçon. Trata-se de uma linguagem que facilita a expressão do pensamento e faz parte do culto dos segredos de comunicação. Convida aquele que ouve a concentrar-se, para descodificar o que lhe está a ser transmitido. "O símbolo nada tem de secreto", diz a autora, existiu desde sempre, e, "as pessoas usam-no para enviar mensagens que não querem que possam ser lidas pelos portadores das mesmas, mas apenas por aqueles que sejam capazes de as descodificar". E continua: "O símbolo é sempre a representatividade de algo, que pode ser facilmente ou dificilmente descodificado" e, dá vários exemplos: desde o aperto de mão, à linguagem dos surdos, a todos os alfabetos escritos, desde os mais antigos até ao alfabeto morse. Acrescenta definições de autores sobre os símbolos e sua abrangência no pensamento, na vida, nas obras, na ciência, na arte, como a poesia, música ou escultura. "Esta questão dos símbolos não é talvez uma das questões mais conhecidas do público profano, embora seja das mais discutidas pelo povo maçónico, entre o  qual tudo é símbolo". " O mundo dos símbolos é coerente, é uma maneira de ver e de sentir as coisas por dentro" mais "...os símbolos são o centro, o coração da via imaginativa, revelam os segredos do inconsciente, abrem o espírito ao incógnito e ao infinito...".
O símbolo? Tudo ou grande parte é símbolo na nossa vida? A Maçonaria só tem razão de ser na sua simbologia e o que ela representa para as pessoas? Quando se operacionalizar toda a descodificação dessa simbologia a Maçonaria já não é esse " bicho papão" ou essa "coisa tão acima de todos nós", ou de cada um dos outros seres, que dela não fazem parte? Quererá o mundo maçónico partilhar com o não maçónico esses segredos, esses símbolos e seus significados?
"Na Maçonaria são uma espécie de linguagem, como os hieróglifos egípcios, como analogia com o sentido oculto do pensamento humano. É por excelência, a linguagem pela qual o saber se pode exprimir, é a janela aberta para a compreensão espontânea de que a Iniciação se serve... é um gesto criador que está na origem das manifestações vistas, ouvidas ou vividas e que pretende reproduzir todos os ritos tradicionais. Mas há que.... "distinguir os símbolos de outras imagens, como por ex: emblema (ex: Cruz Vermelha), atributo (ex: asas da Força Aérea); alegoria (ex: ramo de oliveira que simboliza a paz)". O símbolo para a Maçonaria é mais que uma representação única e fixa, é... uma abertura para a transcendência (ex. sinal + (mais) para a Química e Matemática é desprovido de qualquer conteúdo, não passa de um sinal. Agora o sinal + como cruz, já é símbolo, porque se associa a outros símbolos.). O símbolo é muito menos limitativo do que a palavra e dá ao espírito a possibilidade de se libertar das fronteiras do concreto". "Como alguém disse um dia: Vivemos num mundo de símbolos... e um mundo de símbolos vive em nós". "Podemos, pois, aceitar que há uma ciência do simbolismo". "O simbolismo é a ajuda eficaz para quem quiser seguir uma pesquisa metafísica. De resto, a metafísica só é possível sob a forma simbólica de experiência espiritual". "O simbolismo... está ao alcance de todos os seres humanos que põem questões sobre a sua existência e o seu futuro".
De facto, uma visão da realidade ou da realidade simbólica. Uma visão com conteúdo programático baseada em símbolos e nas suas representações: o que representa para todos e para cada pessoa, cada indivíduo, em particular. O símbolo, nessa perspectiva, é muito mais abrangente, já que cada um lhe dá a sua conotação própria, individual que é, com toda a certeza, diferente de outras, e, todos juntos, chegam a um consenso. Será esse o método do aperfeiçoamento pessoal: a visão individual confrontada com a visão de todos os outros para assim, em  conjunto, se chegar a uma conclusão única ou a mais certa, verdadeira? Aquela que já enfrentou o contraditório e a afirmação, e que se escolheu por ser a mais unanime, abrangente e holística  de todas elas?

Anexos:
Nesta parte do livro, Maria Manuela Cruzeiro, fala-nos de dois conceitos muito caros para a Maçonaria: a Tolerância e a Solidariedade.
Tolerância, é  "virtude maçónica essencial", caracterizada por "admitir e respeitar aquilo que é diferente de nós". Historicamente a tolerância caracteriza o Humanismo, corrente de pensamento própria do Renascimento, o qual se traduz por um regresso à Antiguidade. Os ideais humanistas confundem-se com os ideais democráticos, com os ideais da fraternidade universal e, por consequência, com os ideais da tolerância. "O pensamento maçónico é necessariamente humanista" já que "os Maçons trabalham para o aperfeiçoamento moral e material, assim como para o melhoramento intelectual e social da Humanidade".
"A tolerância é uma das mais significativas características maçónicas, e faz mesmo parte da "Declaração de Princípios" de qualquer Obediência Maçónica, desde as "Constituições de Anderson". Para a Grande Loja Feminina de Portugal na "Declaração de Princípios" menciona " a sua fidelidade à Pátria, assim como a sua obediência aos Princípios de Liberdade, Laicidade, Tolerância e Respeito pelos outros e por si próprios". É pois... "esse princípio fundamental, a tolerância, que permite a convivência de todas as sensibilidades políticas, religiosas, artísticas, filosóficas, ou outras". Diz Aristóteles, na sua Ética " há um pouco de Verdade em cada opinião, nenhuma é totalmente perfeita, assim como nenhuma é totalmente errada". "Cada maçona e cada maçom tenta levar os seus irmãos a descobrirem o que ele já descobriu. Cada um pensa e leva o outro a pensar".
Deve haver Limites à tolerância? Sim, sempre que algo contenda com a nossa consciência... sempre que algo nos pretenda impedir de sermos justos, verdadeiros, modestos, solidários... sempre que, tendo vislumbrado o nosso dever, haja algo que tente impedir-nos de o cumprir.
Solidariedade, "... é um sentimento que nos faz viver as dificuldades de alguém, querer aliviá-las e, sobretudo, querer reduzir-lhe o sofrimento." "A solidariedade existe individual e coletivamente". O princípio da solidariedade opõe-se ao individualismo egoísta, assim como ao coletivismo interesseiro... A solidariedade não deteriora a igualdade daquele que precisa de ajuda face ao outro que o assiste, uma vez que a essência da solidariedade é o reconhecimento e o respeito pelos direitos do ser humano, mesmo quando esses direitos possam estar momentaneamente enfraquecidos.
Solidariedade implica a aceitação do "outro", tal como ele é... e que, uma vez aceite para partilhar a nossa vida, tem direito a esperar de nós aquilo que esperamos dele.
Etimologicamente "solidariedade" pretende traduzir um sentimento sólido, forte, no qual se pode confiar, com o qual se pode contar... Após a revolução industrial foi esse conceito fortalecido pela necessidade de ações solidárias, nas conquistas dos direitos humanos para as classes trabalhadoras, que os não tinham garantidos em bases legais".
Solidariedade é um sentimento belo, indispensável à paz entre os Homens. Para o mundo profano culto, Maçonaria é sinónimo de solidariedade. Há diferentes solidariedades: solidariedade-acordo, solidariedade-dever, solidariedade-sentimento = justiça integral - está implícita na "Declaração de Princípios". Todo o maçom e toda a maçona tem, como dever principal, e até como orientação de vida, em todas as circunstâncias, ajudar, esclarecer, proteger o seu irmão ou a sua irmã, mesmo com risco de vida... e cada membro da Maçonaria tem igualmente o dever de estender a toda a humanidade os laços fraternos que nos unem. Deste modo, o principal objectivo da Maçonaria é estabelecer entre todos os maçons uma comunicação activa de fraternidade e de entreajuda, em todas as circunstâncias, de fazer renascer e fortalecer os valores sociais e de tentar ser o mais útil possível a cada um e a toda a humanidade. E o trabalho dos maçons tem-se visto em muitos exemplos: na Idade Média (Irmãos Hospitaleiros) ou as Santas Casas de Misericórdia, mais tarde, a criação da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) - Bruxelas; em Lisboa (José Fontana) - Associação Fraternidade Operária); apresentação de propostas de lei que implementaram medidas de segurança social, de obrigatoriedade de instrução pública, de previdência e segurança no trabalho, cuidados de saúde...

Em jeito de Conclusão, Maria Manuela Cruzeiro, diz ter vestido o papel de historiadora, embora este não deixe de ser um ente humano, pelo que tentou isolar o que vai ficar na memória histórica daquilo que fará parte das suas vivências pessoais ou afectivas.

Com efeito, tem razão: há narrativas objetivas e subjetivas, mesmo aquelas, o são também nestas.
Porém, resumindo do que foi dito, e o que é importante realçar:
A Maçonaria é uma organização fechada, não uma sociedade secreta, pelo que, limitada a determinadas pessoas com perfil próprio. Tem regras hierárquicas rígidas, começando com o iniciado e seguindo-se até ao(à) Grã-Mestre e suas relações internacionais. O segredo, como nós o entendemos,  não existe, porque é intrínseco a cada indivíduo, ou existe, mas é vivido e fechado, isolado, em cada e por cada um dos maçons, que só o conhecem ao subirem na hierarquia da Ordem. A linguagem utilizada e vivida intensamente na Maçonaria é a linguagem simbólica. Os símbolos devem ser interpretados à medida da evolução de cada maçon. É através do símbolo que se manifesta a comunicação. Como corrente filosófica, tem por objectivo principal a evolução e o aperfeiçoamento do ser humano, começando com os próprios maçons e alargando-se a toda a Humanidade. Parte-se do princípio filosófico confuciano que:  "Se cada indivíduo agir para ser melhor, as famílias serão melhores... se cada família for melhor, as sociedades serão melhores... se cada sociedade for melhor, todo o mundo poderá ser bom" e fundamenta-se em valores defendidos pela Revolução Francesa de 1789:  "Liberdade, Igualdade, Fraternidade, Tolerância, Solidariedade, Justiça, Cumprimento do Dever, Procura da Verdade...". Entre outras virtudes, defendem a da Tolerância e a da Solidariedade. Aquela, com limites ao impedimento do cumprimento do dever. Esta, necessária sempre que haja um outro irmão maçon ou não, a necessitar do seu apoio ou ajuda fraterna, fortalecendo assim os valores sociais e o tentar ser o mais útil possível a cada um e a todos.
Trata-se pois, de uma visão e modo de estar em vida. Uma perspectiva vivencial no sentido de como chegar ao  seu aperfeiçoamento enquanto ser  humano.
Há tantas visões e perspetivas de se chegar ao aperfeiçoamento! As mesmas não se esgotam na vivência maçónica, como na vivência cristã ou hindu, por exemplo. Tantos caminhos, para se chegar ao mesmo destino, ao mesmo fim: a Felicidade do Ser Humano!
Termino, como comecei, a História da Maçonaria, e, por sua vez, da Maçonaria Feminina, é a História evolutiva de Homens e Mulheres que corajosamente passaram De Minoria Perseguida a Silenciosa Vencedora.

Bragança, Março de 2016
Maria Idalina Alves de Brito


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